segunda-feira, 27 de abril de 2015

Deu no Novo Jornal: Em Guamaré tem meninos bons de bola.

Quando o português Rui Almeida chegou à pequena Guamaré, no interior do Rio Grande do Norte, viu mais que apenas um novo lugar para morar. Com doze anos de experiência como treinador profissional em terras lusitanas, ele se surpreendeu com o potencial dos meninos da periferia nas peladas em campos de barro.


“É impressionante como realmente o brasileiro tem muito potencial no futebol. Mas é preciso olhar para esta realidade”, avaliou. Ele olhou, e desafiou o prefeito do município a implantar o que hoje é um dos maiores projetos de formação inicial de futebol no Rio Grande do Norte, envolvendo mais de 400 crianças e adolescentes. O “Livro na mão, bola no pé” pretende promover formação cidadã através do esporte e garantir a permanência das crianças na escola, espantando o fantasma da evasão escolar. As atividades começaram em maio do ano passado, quando o português deixou Lisboa para construir uma nova vida no Brasil.


A consistência do projeto e seu grau de abrangência conquistaram o prefeito do município, Hélio Miranda, que decidiu apostar nas ideias do treinador e implantar a ação, junto à Secretaria Municipal de Esportes. Além dos dois campos de treinamento – um em Guamaré e outro no distrito de Baixa do Meio – os meninos e meninas recebem fardamento, chuteiras, meiões e todo material de treino. O ritmo dos treinamentos é puxado, mas não falta entusiasmo. “Todos os dias temos treinos com as diversas turmas, desde os pequenininhos aos maiores. E temos notado uma participação muito grande deles”, comenta o idealizado Rui Almeida. Em campo, mais que apenas táticas e estratégias de jogo. “Há todo um trabalho técnico, teórico também, para que eles entendam o futebol de uma forma mais ampla, de uma maneira profissional. Sem contar na questão cidadã, que é um dos nossos fortes. Não queremos formar apenas atletas, mas cidadãos melhores”, explica a educadora física Nara Dias, coordenadora de projetos esportivos da Secretaria de Esportes.


É ela quem acompanha o rendimento e frequência escolar dos alunos atendidos pelo projeto. “Os resultados tem sido bons e esperamos que isso vá melhorando ainda mais neste ano”. De acordo com Rui Almeida, a experiência profissional na Europa lhe mostrou que a formação de base é um segredo importante para o desenvolvimento de um atleta profissional. “Vemos aqui crianças que já demonstram um potencial grande para o futebol, mas precisam de apoio. Essa é uma das funções do projeto, aliado ao cuidado com o desenvolvimento do aluno em sala de aula. Não adianta só vir jogar, tem que estar bem com os estudos”, garante.


Cauã, de oito anos, é um dos meninos que já fizeram do campo sua segunda casa. Faz de tudo para não faltar aos treinos e, no gramado, faz o possível para ser um dos melhores. Na cabeça, o sonho comum a todos que estão no projeto: ser o próximo Neymar do futebol brasileiro num futuro que esperam não estar tão longe. No toque com a bola, o menino já mostra intimidade e entusiasmo. A organização e tamanho do “Livro na mão, bola no pé” tem atraído os olhares de prefeituras da região e de clubes de futebol do interior. “Já estamos participando de pequenos torneios com outras cidades e buscamos oferecer aos meninos uma estrutura profissional, como ônibus confortável para transporte e até hotel. Isso mostra dignidade no trato com as crianças”, explica Nara Dias.

SELO UNICEF 

Quando decidiu apostar na ideia, o prefeito de Guamaré, Hélio Miranda já sabia que o sucesso do projeto seria fundamental para uma luta que está envolvendo vários setores da prefeitura: a conquista do Selo Unicef – Município Aprovado. O selo é um reconhecimento internacional que o município pode conquistar pelo resultado dos seus esforços na melhoria da qualidade de vida de crianças e adolescentes. Para isso, a Unicef leva em consideração um diagnóstico de dados sobre o município.
Com dados concretos e participação popular, o município tem condições de rever suas políticas e repensar estratégias de forma a alcançar os objetivos buscados, que estão relacionados aos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. “O projeto Livro na mão, bola no pé é uma das ações que têm sido desenvolvidas pela equipe pensando na melhoria da qualidade de vida das crianças da nossa cidade. Assim como este projeto, várias ações estão sendo realizadas em outras secretarias, visando esta conquista importante que é o Selo Unicef”, comentou o prefeito.

PENSANDO GRANDE

Com o grande número de crianças envolvidas, o projeto já começa a ser conhecido em meio à população. Para aqueles mais próximos do futebol, trabalhar a formação de base é também pensar no futuro do futebol profissional da cidade. O único clube profissional de futebol, o Guamaré Esporte Clube, participou pela primeira vez da primeira divisão do Campeonato Estadual de Futebol em 2007, mas não conseguiu se manter na competição. Em 12º lugar, foi rebaixado para a segunda divisão, que havia conquistado no ano anterior. “Temos um bom número de adolescentes que tem trabalhado de forma séria e comprometida, por isso não descartamos a possibilidade destes meninos serem uma alternativa no sonho de restabelecer o futebol profissional de Guamaré”, conta Rui.

FUTEBOL TAMBÉM É COISA DE MENINA


No meio das centenas de meninos, um tom rosa chama a atenção. São as meninas do time feminino do projeto “Livro na mão, bola no pé”. Logo que começou as atividades em Guamaré, o treinador Rui Almeida percebeu o interesse de algumas meninas em participar dos treinos. “Desde a concepção já tínhamos imaginado esta possibilidade. O futebol não é mais território exclusivamente masculino”, explicou. A equipe feminina é formada por mais de vinte meninas de Guamaré que levam a sério o trabalho e mostram bons resultados. No primeiro torneio intermunicipal disputado pela equipe, elas conquistaram o terceiro lugar, trazendo para casa a medalha de bronze. Mais que o placar das partidas, a organização da equipe chamou a atenção de quem estava participando do torneio. Enquanto as demais delegações ficaram concentradas num ginásio da cidade onde ocorreu o evento (Santa Cruz), as meninas do projeto e toda a equipe de apoio ficaram num hotel da cidade.



“Acreditamos que através do esporte é possível oferecer condições para que crianças e jovens possam ter um estímulo a mais em seu processo de crescimento enquanto cidadão. Por isso levamos tão a sério a forma com que lidamos com estes projetos”, comenta a secretária de esportes de Guamaré, Larissa Mayara.

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